20 de maio de 2017

Segurar as pontas se faz a dois.

Eu estava no mercado, e enquanto passava as compras, um casal estava saindo do caixa ao lado. Vi que a mulher prontamente tentou pegar a sacola enorme, que continha tudo que haviam comprado. Estava cheia e visivelmente pesada. O homem, que efetuava o pagamento, no momento imediato que a viu, correu ao seu encontro e quis pegar a sacola.
"- Tudo bem amor, eu consigo." - A mulher insistiu.
O homem sorriu, pegou uma das alças da sacola, e disse:
"- Eu seguro uma ponta, e você segura a outra."
Então eu vi aqueles dois saindo do mercado. Não de mãos dadas, mas, lado a lado, carregando juntos uma sacola de compras.
Segurar as pontas é algo que se faz a dois. - pensei.
É que a verdade é que o amor é uma sacola cheia.
A gente tem mania de querer só a sacola e ignorar a existência do peso de tudo que vem dentro. Mas, não dá. É tudo ou nada. É conjunto que não vende separado. Não dá pra abrir a caixa e pegar só uma unidade. É tudo. E carregar tudo pesa demais pra ser algo a se fazer sozinho.
Fiquei olhando aqueles dois caminhando e imaginando se um deles soltasse a alça. A sacola ia cair. Tudo que adquiriram se espalharia pelo chão e, mesmo se o outro tentasse segurar, machucaria o braço.
Segurar as pontas é algo que se faz a dois. Tive certeza.
É isso que a gente aprende quando escolhe amar. E é difícil.
É difícil porque quando a gente vai ao mercado sozinho, compra só o que quer e é bem mais fácil de levar. E a gente aprende a carregar apenas o próprio peso a vida toda e se acomoda, mas, de repente, tem mais alguém do seu lado enchendo a sacola. E agora, já não se carrega mais apenas uma forma de pensar, e sim, duas. E agora, a decisão não é mais sua, mas é feita a dois. E agora, o que pesa e machuca o outro, te machuca e pesa em você também. Porque amar é adotar a dor do outro pra si. E o riso. E as conquistas. E sonhos a ainda serem conquistados. E tudo isso pesa. Mas é aí que se encontra o equilíbrio: O peso aumenta, mas, agora, você não precisa mais carregar sozinho. E ao mesmo tempo que se multiplica, se divide. E no final, o saldo sempre é positivo. E a gente descobre o quão maravilhoso isso é.
O amor é uma soma bonita. Somam-se manias, gírias, conhecimentos, habilidades, receitas de cozinha, e forma-se um belo time de dois. E um troca a lâmpada enquanto o outro segura a escada. E um pendura o quadro e o outro cuida pra não ficar torto. E um sente frio, e o outro aquece. E o que falta em um, o outro repõe. Porque amar também é isso. É colocar o seu próprio dia ruim no bolso pra alegrar o dia ruim de quem está do seu lado. É repor o sorriso que falta no rosto cansado do outro. É repor o polegar acariciando a mão quando o medo vem. E gritar: "você consegue!", quando o outro desanima e não acredita. É ajudar a carregar. Seja lá o que for.
Mas pra funcionar, tem que ser a dois. É via de "mão dupla", aprendi.
Tem muita gente arrastando sacola sozinho. Tem muita sacola abandonada no estacionamento, também, porque ambos desistiram de segurar. O amor é recompensa de quem arregaça as mangas, e está disposto a carregar, em todas as curvas e declives da caminhada.
Entendi:
Felizes aqueles que seguram a sua ponta com a certeza de que do outro lado, a outra também, está sendo firmemente segurada

2 de maio de 2017

A vida é pra ser vivida, não suportada.

Ser gentil, amigável e prestativo é uma coisa ótima. Se mais pessoas dispusessem de um pouco do seu tempo e energia para ajudar os outros, provavelmente o mundo seria um lugar bem menos hostil e viver seria muito mais leve.

Por outro lado, não devemos confundir gentileza com passividade.

Acredito veemente no perdão. Porém, acredito também que deve ser perdoado quem pede perdão, quem deseja ser perdoado, quem demonstra arrependimento e vontade de dar um novo rumo para a relação.

Não, não somos obrigados a aguentar tudo. Paciência tem limites. Ninguém precisa sair pelo mundo se vingando, mas também ninguém deve ser obrigado a conviver e a ser gentil e a distribuir beijinhos e sorrisinhos para quem nos magoou gratuitamente.

Na maioria das vezes, como afirma o ditado popular, quem bate, esquece . Mas quem apanha não. Quando ofendemos ou prejudicamos de forma mais objetiva uma pessoa, causando danos à sua vida, devemos SIM tentar consertar o que fizemos de errado ou pelo menos tentar amenizar de alguma forma o estrago que provocamos.

A vida é feita para ser vivida, não suportada. Quando somos obrigados a relevar tudo, ignorando os nossos sentimentos, ignorando feridas ainda abertas, impomos a nós mesmos uma espécie de tortura psicológica.

Sim, somos nós que conhecemos os nossos limites e sabemos até onde podemos caminhar sem forçar as articulações da alma. Somos nós que podemos mensurar o peso de uma ofensa e a extensão de um estrago sofrido em nossa vida.